segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Festa de TEMPO

Taata Mutá Imê


Agosto é um mes de intensa atividade cultural na cidade de Salvador. Falo da cultura negra em suas varias expressões, com destaque para o candomblé. No proximo sabado haverá festa de Tempo na Casa dos Olhos de Tempo Que Fala da Nação Angolão-Paketan, aos cuidados do Taata Kwa Nkisse Mutá Imê. Aos leitores interessados nesta festa, façam contato. Em varios outros terreiros haverão homenegens à Tempo. Em Cachoeira, no recôncavo baiano, reduto forte de varias manisfestações culturais de origem africana, com destaque para o candomblé, capoeira, samba de roda e samba chula, acontecerá neste fim de semana a famosa festa de Nossa Senhora da Boa Morte. Para quem estiver por aqui, este evento é imperdivel. O mestre Valmir está organizando a saida de um onibus direto para lá, onde haverá uma roda de capoeira angola e em seguida, as pessoas poderão desfrutar da riqueza que é aquele lugar. No final da tarde, o retorno para a capital. Ja fui algumas vezes nesse onibus da Fica. É divertido demais! Agosto tambem tem festa no nosso terreiro. No proximo dia 18, completo 50 anos. Voces estão convidados para a festa, levem frutas e bebidas.  Nesse mesmo dia,  completam 5 anos que estamos na comunidade do Alto da Sereia. Isso quer dizer que o trabalho que desenvolvemos com as crianças de lá tem esse tempo. Vamos dizer que iniciamos uma jornada. Com quantas chegaremos no meio dessa jornada? Imaginem quantos desses jovens estarão comigo no avançar de minha velhice? Contarei muitas alegrias certamente... Quando semeamos, é sempre para ver a semente germinar e crescer.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Nzinga 15 anos









Nos dias 30, 31 e 1° de agosto, o Grupo Nzinga de Capoeira Angola realizou na cidade de São Paulo, evento comemorativo de seus 15 anos de existência. Os mestres Valmir, Jaime de Mar Grande, Plínio e mais as mestras Janja, Paulinha e eu, fomos os oficineiros de plantão. Ainda tivemos o mestre da cultura popular Tião Carvalho com o workshop de Danças Brasileiras e mais o Taata Dya Nkisse Mutá Ime com a aula de dança de Nkisse. Tinha lá também um grupo de discípulos nzingueiros afinados na orquestração dos afazeres para que tudo transcorresse da maneira mais leve possível. Bom, com esses ingredientes, já dá para ver que foi um evento maravilhoso e cheio de emoções. Daqueles inesquecíveis mesmo! Pelo olhar de mestre que também sou deste grupo, senti-me muitas vezes orgulhoso pelos resultados obtidos nesses primeiros quinze anos. Resultados esses que podem ser percebidos nesses discipulos principalmente no modo de se colocarem perante o outro e o coletivo. A cidade de São Paulo, onde o Nzinga foi fundado, estava com seu friozinho característico e até isso foi legal! Levamos para lá, nada menos que 9 dos jovens e crianças que fazem capoeira com a gente no Alto da Sereia, em Salvador: Iolanda, Bruna, Leo, Bebe, Vinicius, Antonio, Anderson, Anthony e Marquinhos. Alem das presenças de Fulaninho, Fernanda, Fabiana,     Diego, Ana Pi, Ligia e Jon. Em outras palavras, a delegação do Nzingasalvador foi a maior representação de fora de São Paulo.
  Pensem na repercussão que uma viagem como essa tem na comunidade. Hoje mesmo estive pela manhã visitando as famílias de algumas crianças do nzinga para relatar um pouco da experiencia da viagem e encontrei todo mundo muito feliz e satisfeito com o rumo que a vida daqueles jovens e crianças estava tomando. Ainda brinquei dizendo que a próxima viagem vai incluir tambem as mães desses. Uma delas tratou logo de dizer que tem medo e jamais vai viajar de avião, mas acho que quando se aproximar a hora, isso pode ser revertido. Ainda andando pelo Alto da Sereia, fui abordado por duas jovens que disseram que entrarão na capoeira amanhã. Certamente já movidas pela repercussão da viagem das outras. Sempre depois que acontece alguma viagem ou algum passeio do grupo, a demanda aumenta consideravelmente com muitas crianças se apresentando para integrarem o grupo. Com o decorrer dos dias, algumas vão se evadindo, mas sempre fica um ou outro, e assim a gente vai lentamente crescendo e formando o "nucleo duro"que todo grupo tem. Paciência é uma virtude necessária para vivenciar esse tipo de atividade. Quem trabalha  na tradição, trabalha com a esperança... 
Apesar de não ter estado nas minhas melhores condições físicas durante o evento, me senti feliz pelas pessoas que conseguimos reunir em torno da causa que nos une, a capoeira angola. Foram 4 dias de alegria e compromisso com a tradição !

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Novas gerações!

Ontem, domingo, tivemos na sede do grupo Nzinga em Salvador, um encontro no minimo inusitado. Estavam as novas gerações de 3 instituições que desenvolvem trabalhos com a Capoeira Angola. As crianças da Fundação Pierre Verger, sob a coordenação do m. Gabriel, as do Projeto Pequenos do João coordenadas pela treinel  Nani e as do Instituto Nzinga. Aquele foi o terceiro encontro entre eles.  Fora o fato de terem que ensaiar para as gravações de um cd de estoria, a interação entre eles é forte. Este cd fará parte do livro. Se pensarmos que muito daquelas tantas crianças ficarão para sempre na capoeira, então terão  a chance de serem amigos a vida toda umas das outras. Essa ideia é legal! A maioria dos meus amigos mais antigos são da capoeira e olha que comecei depois dos vinte anos. O velho Pastinha ja disse que a pessoa que tem muitos amigos é uma pessoa corajosa. Ontem conheci a menina Janaina , 9, do Pequenos do João e ela me disse que começou com a capoeira aos dois anos. Só sei que nada sei…mas sou capaz de apostar que isso fará diferença no final.  Destas gravações tambem farão parte os mestres João Pequeno e Boca Rica.  Uma bela conexão de opostos unindo o novo com o antigo. Com certeza teremos nos proximos meses um documento de grande valor para a historia da capoeira na Bahia e no mundo.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Bye Bye London!

      Cheguei ontem do Reino Unido. Passei antes em Varsovia, capital da Polonia e em Marburg, pequena cidade localizada na região central da Alemanha. Penso que Londres tem ainda um processo para experimentar antes do seu ritual de passagem para a fase adulta no contexto da capoeira angola. Com trabalhos reconhecidos la, os mestres Carlao e Joaozinho me receberam muito bem em seus grupos. Obrigado!
     Esta foi a segunda vez que estive em Londres e a cidade tem um charme especial. O lugar onde mais vi pessoas exóticas por metro quadrado. E' legal isso! Fui em alguns pubs bem decentes.
     Em Varsovia, e' aquela coisa de começar do começo… nao existe capoeira angola, ate onde eu sei…e' uma capital européia com sérios problemas econômicos e sociais. Nao e' nenhuma Londres, mas consegue mostrar os ares de modernidade. Por outro lado, também consegue mostrar algumas coisas parecidas com coisas de países de terceiro mundo.
    Talvez ja tenha me referido em outras postagens a cidade de Marburg. Ha cinco anos existe um pequeno núcleo do Grupo Nzinga la'. La também nao existia nada parecido. De seus 80 000 mil habitantes, 30 000 sao estudantes. Imaginem que rola uma grande rotatividade de pessoas e muitas baladas la' ne'? Cada uma destas 3 cidades busca o seu caminho na definição de uma identidade no novo mapa da capoeira, na medida em que esta cada vez mais se espalha pelo mundo.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Viva Deutschland!

Agora sim, o verao. 38 graus! Apesar da sensacao termica nao ser igual aos 38 graus que temos no Brasil. Isso tem haver com a luminosidade, com o valor do "albedo", que e' a unidade que mede a claridade do sol. Aqui na europa, se nao me engano, e' 6% menor que no Brasil e por isso os nossos 38 graus sao mais quentes que os 38 graus daqui, se ligaram? O certo mesmo e' que todos estao curtindo muito os parques e ambientes ao ar livre. Ha uns 3 dias atras Assisti ao jogo do Japao com o Paraguai em um lugar chamado "prainha". Era o espaco de um estacionamento de um grande banco alemao que estava sendo utilizado como area de lazer em Marburg. Todo o chao esta coberto por areia, mesas e sombreiros grandes, pequenas palmeiras em grandes vasos e um bom servico de bar. Varias TVs grandes localizadas em posicoes estrategicas do espaco e otimas cadeiras de praia com recosto na cabeca. Neste dia fomos surpreendidos por uma chuva forte e fomos obrigados a nos abrigar. Ontem, o Mastrinho me levou numa especie de clube de piscinas. Paga-se para entrar. Tinha tanta gente que foi impossivel nao lembrar do "Piscinao de Ramos", la no Rio de Janeiro, que anos atras foi cenario de uma das novelas de sucesso da rede globo. Fiquei muito tempo no sol e nao consegui "pegar um bronze". Me lembrei de trazer um protetor solar do Brasil, mas percebo agora que nao vou utiliza-lo. Hoje tera o jogo do Brasil com a Holanda. Aqui, tenho visto nas ruas muitas manifestacoes dos torcedores alemaes, tal qual acontece no Brasil. A maioria dos carros ostenta a sua bandeirinha, as pessoas tocam as suas vuvuzelas, muitas mulheres fazendo isso. Ai no Brasil, isso quem faz sao os homens. Tem me atraido a atencao de fato, essa demonstracao do nacionalismo alemao. Depois da guerra, esse tipo de emocao ficou contida por conta de tudo aconteceu. Sair as ruas abracado a uma bandeira poderia parecer apologia a um tempo que ja passou e que deixou marcas profundas na consciencia do povo.  Lembro-me que em 2007 quando estive aqui a primeira vez e comprei um casaco estilo militar para encarar o frio de -5 C, achei melhor tirar duas bandeirinhas alemas que tinha nas mangas do casaco, pois logo em seguida seguiria para os EUA e achei que os americanos nao iriam gostar muito delas. Conversando com pessoas que moram aqui, soube que esse movimento de resgate da auto estima por sua bandeira vem acontecendo desde a copa de 2006 aqui na Alemanha, num movimento que os jovens desencadearam sem medo de serem criticados ou rotulados. A partir deste canal aberto pelos jovens, a alegria de toda uma nacao manifesta-se de maneira mais espontanea e efusiva nos jogos da selecao alema. Hoje participei de um bolao por 5o centavos de euro e arrisquei 1  X 0 para o Brasil contra a Holanda e 1 X 0 para a Alemanha contra os argentinos. Quem aposta?

terça-feira, 29 de junho de 2010

Da Polonia à Alemanha

Impossivel evitar que as questoes que envolvem as relacoes entre Polonia e Alemanha me venham a cabeca nesta hora. Ha 24 horas atras, estava em Varsovia, onde ouvi poloneses se referindo aos fatos ligados à segunda grande guerra. Na verdade, hora nenhuma ouvi alguem falando  mal dos cidadaos alemaes, mas ouvi muitos se referindo aos fatos. E os fatos a historia trata de contar. Ja tinha escutado em novembro de 2009, quando estive a primeira vez em Varsovia, que a cidade havia sido mais atingida pelo fogo alemao em um dos seus lados, ja que o rio Vistula, divide a cidade ao meio. Agora, ouvi que no lado que foi menos bombardeado ficaram estacionadas as tropas russas. E ai a pergunta que se segue e': porque os alemaes nao atacaram os russos tambem? O que consta nos autos da historia e' que havia um acordo secreto de nao-agressao entre as duas potencias militares. Os russos ficaram esperando que os alemaes se desgatassem com a forte resistencia polonesa e, enfim eles invadiriam e tomariam Varsovia, o que acabou acontecendo, de maneira ou de outra. Ocuparam o pais por  decadas e so para falar do aspecto arquitetonico, deixaram marcas  dificeis de passarem despercebidas aos nossos olhos. O Instituto de Cultura de Varsovia,  e' um exemplo de arquitetura  megalomaniaca instalada por  Stalin no centro de Varsovia, como um "presente" que o imperio russo dava à  todos os locais que invadia. Ate cheguei a lembrar do Cavalo de Troia, que tambem chegou como um presente. Existem varios monumentos iguais aquele, espalhados principalmente no leste europeu. O predio e' gigante! Pode ser visto de quase todos os pontos da cidade. E por ai vai! Estou nessas imbricacoes mentais agora, aqui, em territorio alemao. Sera' que  terei a chance de conversar com alguem daqui sobre essas reflexoes?  Tambem ouvi alguns poloneses se referindo ao futuro, como forma de esquecer o passado. Ja percebi, porem, que o assunto e' delicado tanto na Polonia quanto na Alemanha.  Ainda e' possivel encontrar pessoas vivas que estiveram no centro dos acontecimentos que marcaram a historia da humanidade no seculo 20, tanto do lado polones, quanto do lado alemao. Para algumas coisas na vida de uma pessoa, 65 anos pode parecer muito tempo, mas para outras, isso pode nao ser nada...
PS: Mais uma vez, me desculpo pela falta de pontuacao.

sábado, 26 de junho de 2010

Parque da Girafa!

Hoje fez um belo dia em Varsovia! Foi um dia vitorioso! O sol brilhou durante todo o dia acompanhado por uma brisa fresquinha, lembrando o outono de Sao Paulo City. Eles dizem por aqui que ja deveria estar bem mais quente, mas por causa do vulcao, estao rolando algumas anormalidades. Mas de qualquer forma, estamos no periodo em que os dias sao muito mais longos do que as noites, de tal forma que agora o sol esta se pondo perto das 22 hs depois de ter raiado as 5 hs. Foi vitorioso porque depois de realizarmos a etapa das aulas de movimentos e ritmo no salao da capoeira durante toda a manha e grande parte da tarde, realizamos no final da tarde e inicio da noite,  uma atividade de rua em conjunto com o grupo de samba que tem aqui em Varsovia, do qual as capoeiristas Ewelina e Agnieszka fazem parte. A concentracao aconteceu em esquina movimentada do centro do bairro de Praga, de onde partimos em cortejo - samba e berimbalada -  em direcao a um otimo parque nao muito distante dali. As pessoas aqui estao em total ritmo de verao, passeando de shorts e camisetinhas regatas, bikes com as criancas e etc. As flores em todas as partes, dao o tom da estacao. Nao diria que arrastamos uma multidao, mas foi grande o numero de pessoas que nos seguiram ate o centro do parque, onde ha' uma obra de arte de uns vinte metros de altura de uma girafa de ferro fundido. Foi ali que haviamos preparado para receber as varias dezenas de pessoas que arrastamos conosco, ate' o momento de realizarmos a roda de capoeira, onde contamos com a presenca de representantes de varios grupos de capoeira regional de Varsovia. Pelo que entendo, so' ha' um grupo de capoeira angola que e' este que esta me recebendo agora. Foi otima a atividade e causou uma reacao de alegria bem visivel nas pessoas que la' estiveram. Eia! Peco desculpas aos meus ilustres leitores, pela falta total de acentuacao nestas postagens em teclados estrangeiros.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Ie, volta do mundo camara!

Hoje estou em Varsovia sendo recebido pelo Grupo de Capoeira Angola Varsovia, que tem como lider o capoeirista Maciek, auxiliado pelas capoeiristas Ewelina e Agnieska. E' a segunda vez que venho aqui na Polonia.  A primeira vez foi em novembro de 2009, portanto, durante o inverno daqui, que nunca e' ameno. Nunca tinha vindo aqui durante o verao. Essa e' a primeira vez que vejo as arvores daqui com todas as suas folhas. E' outra coisa! As pessoas tambem mudam muito o astral. Estou vendo muitas flores e as pessoas usando camisetinhas de malha na rua. Quando sai de Salvador, os baianos estavam vestidos com suas japonas e casacos, suportando um frio de 21 graus do nosso rigoroso inverno. Chego aqui no hemisferio norte, no verao, e encontro exatamente a nossa temperatura de inverno, 21 graus durante o dia e, e' claro, durante a noite a temperatura cai um pouco mais. Nem sei para quanto... Mas pelo menos, durante o dia, o sol brilha. Na proxima semana, estarei em Marburg, pequena cidade do interior da Alemanha que tem o seu cotidiano girando em torno de uma grande universidade. Dos 80 000 habitantes desta cidade, pelo menos 30 000 sao estudantes. Imaginem que e' a cidade das baladas e dos jovens. So' para termos uma ideia, o governo alemao subvenciona a cerveja vendida nos bares, para permitir que estudantes, teoricamente sem empregos, possam consumir o liquido precioso sem gastar muito. Que beleza! O primeiro mundo tem inclusive dessas coisas! Para falar a verdade, o primeiro mundo tem mesmo muitas coisas legais. Pena e' que as relacoes humanas ficam um pouco escamoteadas. Fico as vezes com a impressao de que a evolucao que o esse primeiro mundo experimenta, leva os seus habitantes a`solidao. A minha teoria e' que os paises da europa onde ainda se pode sentir um certo calor humano, nao sao os paises mais desenvolvidos deste continente. Isso e' teoria viu gente! Nada cientifico, tudo empirico!

sábado, 29 de maio de 2010

Discipulo que aprende?

No inicio deste ano, um dos mais tradicionais grupos de capoeira angola de Salvador, e portanto, um dos mais importantes do mundo, o Grupo de Capoeira Angola Pelourinho realizou evento para, entre outras coisas, lançar mais um cd com os canticos tradicionais da capoeira angola, na voz do mestre Moraes, que no ultimos anos vinha sendo o unico mestre do grupo. Digo isso por que durante este evento, um de seus alunos de nacionalidade japonesa, foi "feito" mestre. Lembro-me que naqueles dias, a comunidade capoeiristica baiana ficou um tanto quanto perplexa pelo fato do rapaz ser um "estrangeiro". Fato que na minha opinião não se reveste de nenhuma anormalidade, pois a partir do momento em que esse e muitos outros mestres se propôem a ter nucleos de seus grupos no exterior, é porque tem consciencia da semente que podem plantar. Ninguem semeia pensando nas sementes que não irão vingar. E essa vingou! Parabens a ele e ao mestre que o ensinou. É claro que esse jovem japones carrega uma responsabilidade enorme em suas costas, ja que é um dos rarissimos mestres formados por este tradicional grupo de capoeira. Eu não o vi jogando para emitir opinião sobre o seu jogo, portanto deixo essa tarefa para quem teve esse previlegio. Se pensar na qualidade de outros mestres formados por aquele que o formou, é claro que a expectativa é positiva.  É cada vez maior o numero de capoeristas estrangeiros assumindo cargos dentro de grupos de capoeira mundo afora. O mestre João Grande certa vez disse que a capoeira era de quem queria aprender... 
Isso hoje em dia é coisa normal, mas quando comecei na capoeira no inicio da decada de 80, uma ideia como essa parecia coisa intangivel. Penso nas palavras do velho Pastinha: "A capoeira está para todo mundo, mas nem todo mundo está para a capoeira", para lembrar de quantas pessoas talentosas vi entrar na capoeira e passarem como um verdadeiro furacão, deixando ao sairem, a clara sensação do desperdicio que era uma pessoa como aquela não ter ficado para sempre no mundo da capoeira. A roda da vida tratou de puxa-las para outros lados, em nome de todos os motivos. Com muitas pessoas vi acontecer isso. Uma pena! Mas, por outro lado, alguns sempre ficam, por todos os motivos. E a historia é escrita por esses...

domingo, 23 de maio de 2010

IÊ, Viva meu mestre!

O Cine Sereia, em sua sexta sessão, no dia 14 de maio apresentou os curtas "Iê, Viva meu mestre!" e  "Orquestrinha de Berimbaus". O primeiro, faz parte da apresentação da tese de doutoramento da M. Janja, e mostra os meninos do Nzinga São Paulo falando de Raça e contando sobre Zumbi e a rainha Nzinga. O segundo mostra esses mesmos jovens num dia de apresentação no Morro do Querosene, em dia de festa do Bumba meu Boi. Ambos foram produzidos pela Itinerante Filmes, da nossa querida treinel Manoela. Naquele dia, estavamos recebendo a visita de 28 futuros cineclubistas contemplados pelo edital destinado à cidades com até 20 000 habitantes. Estavam em Salvador fazendo o curso de capacitação de cineclubismo, o mesmo que no ano passado eu e Fabiana fizemos. Uma das atividades do curso seria uma visita a um cineclube em funcionamento e o Cine Sereia foi  escolhido por Sergio Zumbi, monitor do cine+cultura, e Gleciara que ministra os cursos. Chegaram lá cedo, e puderam observar os preparativos. Enquanto a segunda turma de cineclubistas não chegava, comecei a dar uma de animador da festa. Como ja havia feito em sessões anteriores,  fui chamando algumas crianças para fazer apresentações artisticas. As pequenas Adriana e Amanda foram as primeiras a se candidatarem para o show. Depois Adelmo Kirikou cantou a musica do Lobo mal, levando a plateia ao delirio. Aí chega o restante da turma e após rapidas palavras de boas vindas, demos inicio à sessão. Foi o nosso maior publico, 70 pessoas. Mais uma vez, as presença maciça das crianças foi marcante. Começamos assistindo ao filminho da orquestra na festa do Bumba meu Boi, comandada pelo grande Tião carvalho. Impossivel não sentir saudades dos tempos em que morei em São Paulo, entre os anos de 1998-2002. Ver aquele protogonismo juvenil é estimulante. Depois assistimos ao "Iê, viva meu mestre". Foi sucesso total! A Galera gostou muito dos depoimentos das nossas crianças. O debate aconteceu, e os depoimentos das pessoas presentes foram muito importantes. Teve gente bastante emocionada por ter vivenciado a experiencia e visto como é facil fazer acontecer, quando se tem prazer e o compromisso de fazer isto. Neste dia, estavam lá a Elaine, o marido, que tambem tocam um cineclube, e o filho Bruno. Conheci os 3 na epoca do curso de cineclubismo em julho do ano passado. O Bruno estava com uma inflamação que o impedia de andar. Se deslocava com cadeira de rodas. Vê-lo subir os 3 andares do Nzinga correndo naquele dia, foi sem duvida nenhuma uma coisa muita especial. Cumprindo um ritual tradicional do movimento cineclubista, repassamos copias dos filmes exibidos para os outros cineclubes. Na quinta feira proxima passada, exibimos em nossa setima sessão, o filme brasileiro "Lisbela e o Prisioneiro". Demos muitas risadas, mas foi uma sessão morna. Com excessão de Mateo da AMAS, toda a plateia era formada por crianças e jovens. Penso que a oportunidade de se expressar é cada vez mais percebida  pelas crianças como um momento de pertencimento do grupo, do cine e da comunidade. Algumas ainda estão um pouco timidas, outras conseguem dar show de dança e de canto antes de cada sessão.     

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Trabalho de Classe!

 Na sexta feira, dia 7 de maio de 2010, fui chamado por estudantes da faculdade de Educação da UFBa para participar de uma atividade em sala de aula. Me convidaram e aceitei por que tenho interesse em falar para aquela plateia atras da plateia. Futuros professores! Se temos professores, pensemos em crianças então. Para alem da valorização do aspecto da oralidade, tema que aquela disciplina tambem se atinha, além do aspecto da estetica, me senti como numa aula de capoeira, falando para discipulos meus. Seria uma participação discreta e rapida. Pois então, na chegada, eu pontual e a classe nem tanto. Esperei um pouco enquanto chegavam lentamente, inclusive o professor, que afinal, era meu amigo das antigas. Os alunos já acharam engraçado aquele encontro inesperado e efusivo. Beleza! O terreiro era nosso! Ai ficou facil para mim e a minha equipe sagrada. Contei, cantei, toquei, joguei e ensinei e, no que fiz isso tudo, aprendi. Ao chegarmos no epílogo, a satisfação era geral e as avaliações foram bem positivas a respeito da vivencia. O Professor Bob, não por ser  dele velho conhecido, rasgou elogios a respeito da dinamica que tinha rolado na aula. Era uma equipe que estava apresentando o seu trabalho naquela aula. Eles iriam usar alguns recursos digitais durante a apresentação, mas eles não contavam que eu fosse ter assunto até o fim, e mais um pouco. Não dava para, naquele momento, prestigiar o digital, em detrimento do oral, do "bafo"! Portanto, estava em jogo, entre outras coisas, uma boa nota naquela disciplina. Acho que passamos todos na prova!

domingo, 2 de maio de 2010

Cine Sereia



No ano passado, o Instituto Nzinga concorreu a um edital do Mininsterio da Cultura, chamado de Cine+Cultura, destinado à criação de cineclubes, para popularizar a setima arte, o cinema. O Cine Sereia realizou a sua primeira sessão no dia 8 de março de 2010, quando exibiu o filme "Acorda Raimaundo, acorda!". Estrelado por Paulo Betty, o filme aborda a tematica de genero. A segunda sessão aconteceu no dia 18 de março, com o filme "Kirikou e os animais selvagens" que conta as aventuras do pequeno heroi negro africano Kirikou. Para a terceira sessão, no dia 1 de abril, trouxemos o filme "Azur e Asmar", dirigido pelo mesmo diretor do filme de Kirikou, Michel Ocelot e conta a historia de dois irmãos que foram separados quando pequenos e se enfrentam depois de adultos. Na quarta sessão, dia 8 de abril, exibimos o filme "Wall-e" que conta a historia de como o planeta Terra foi destruido e os humanos tiveram que morar em sua orbita até o dia em a vida é redescoberta na Terra. O quinto filme a ser exibido no Cine Sereia foi "Besouro", no dia 22 de abril. Em todas as sessões, a maioria do publico presente é de crianças. Nzingamuleeke!







domingo, 18 de abril de 2010

Mapeando Capoeira

No ultimo mes de março, a Secretaria Estadual de Turismo, promoveu um encontro no Forte de Santo Antonio (da Capoeira), onde os mestres e capoeiristas eram os convidados especiais, para ouvir o secretario anunciar o inicio do mapeamento da capoeira no estado da Bahia, ao mesmo tempo em que pedia a colaboração de todos e todas que estavam presentes, na realização desta empreitada e, a partir daí, transformar a Bahia na "Meca" da capoeira. O pedido me pareceu meio "inocente", certamente pressupondo que as relações entre a capoeiragem e o Estado eram por si só, perfeitas! Fato que não é verdade. A poucos 70 anos atrás, esse mesmo Estado perseguia e prendia os capoeiras, apoiado no codigo penal. Sem falar na total falta de reconhecimento à labuta dos mestres de capoeira que historicamente chegavam e ainda chegam ao fim de suas trajetorias sem nenhum tipo de assistencia ou aposentadoria, apesar de a imagem da capoeira ser usada para atrair cada vez mais turistas para a Bahia, o que gera anualmente uma cifra altissima de divisas para o Estado e que nenhuma percentagem é distribuida com a classe capoeiristica. Há 3 anos houve o tombamento da capoeira como patrimonio imaterial do Brasil e nada aconteceu na vida dos que fazem a historia acontecer. Na decada de 70, teve o famoso episodio do Casarão 19, no Pelourinho, onde o saudoso mestre Pastinha dava aulas e saiu de lá convencido pelo governo do Estado de que o 19 seria reformado e devolvido para o mestre, coisa que nunca mais voltou a acontecer, desencadeando uma onda de sofrimento e dor ao mestre que tanto elevou o nome deste Estado e país, e que culminou com a sua morte em condições precarias. A situação pareceu invertida, com o estado pedindo ajuda. Vê se pode? Ao franquearem a palavra, muitos falaram. Alguns apoiaram de imediato aquela iniciativa, mas outros colocaram ressalvas e se posicionaram na defensiva. Eu fui um dos que relembrou a historia controversa dessa relação com estado e de que os capoeiristas, sem a ajuda do estado, ja tinham conseguido transformar a Bahia na "Meca da capoeira" e que o estado deveria acenar com muito mais de que um "inocente" pedido de ajuda aos capoeristas. O mestre Curió balançando a cabeça, apoiou as minhas ponderações.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Educar, instruir e ensinar!

Ano passado, tivemos aqui no Nzingasalvador, a presença de 3 integrantes do Nzingasampa: O Anderson, o Maurinho e o Luis Rasta. Chegaram aqui no dia 3 de Julho/2009. Se eles bem soubessem o que os aguardaria aqui no dia 2, com certeza teriam dado um jeito de chegar um dia antes para acompanhar a Cabocla e o Caboclo num cortejo maravilhoso do bairro da Lapinha até o largo do Campo Grande, representando de fato a Independencia do Brasil, mas a gente aqui chama de Independencia da Bahia.   Neste dia, já aconteceram  grandes rodas, assim conta a historia. Só para falar numas mais ou menos recentes em que pude estar presente, cito as varias que o GCAP realizou na decada de 80, que aconteciam no largo do Campo Grande, local onde está o monumento do Caboclo e para onde converge o cortejo. A FICA, com o mestre Valmir, há varios anos realiza neste dia, uma grande roda de capoeira na entrada do Largo Dois de Julho.  A chegada dos 3 rapazes aqui, foi alguns dias depois de visitarmos por quase uma semana a capital paulista, por ocasião da comemoração dos 14 anos da matriz do grupo Nzinga, que aconteceu antes do São João, quando fomos ineditamente acompanhados de pelo menos 4 alunos daqui de Salvador. A missão foi participar do evento comemorativo dos 14 anos, gravar o nosso segundo CD e festejar o Batizado do Boi, mega evento que acontece no Morro do Querosene, promovido pelo grupo Cupuaçu, sob a batuta do mestre Tião Carvalho. No que diz respeito à organização do evento de capoeira, foi perfeita! Deu tudo certo. Certas aprendizagens, as vezes necessitam de mais tempo para cristalizarem-se em atitudes e mudancas de comportamentos.  Que bom! É como o sofrimento de quem nasce: num minuto está mergulhado num liquido quentinho, confortavel e essencial à vida, e no outro está exposto ao ar do mundo exterior, estranheza essa que lhe provoca o primeiro choro mas, a partir daquele momento, tambem essencial à vida. Bom, nasceu afinal de contas e isso é motivo de se festejar! A desenvoltura e organização dos nzingueiros de sampa realmente são dignas de elogios. Foram dias e dias de trocas, ensinamentos e aprendizagens aqui em Salvador, espero que os 3 meninos de sampa tenham compartilhado de todas as maneiras, as experiencias vivenciadas aqui com os outros que não puderam vir. Educar, ensinar e instruir: eis o desafio.
Essa postagem ja devia ter sido publicada há meses, mas por motivos pessoais (ha!ha!ha!), não foi possivel. Outras tecnologias foram experimentadas, testadas e reprovadas. Estamos de volta ao velho e bom blog.

Uma pequena mostra de como se toca o xitende, arco musical moçambicano, em evento ocorrido na provincia de Xai-Xai em janeiro de 2010.
Tamojuntos!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O Som sagrado do Nzinga

Galera, depois de uma longa espera, finalmente está gravado o novo CD do grupo nzinga, que deverá ser lançado em julho ou agosto deste ano. Começamos as gravações no ano passado, quando eu, Paulinha e Janja entramos no estudio Por de som, um dos melhores de São Paulo, para as primeiras gravações. Naquela epoca, estava com a voz abalada por inumeros workshops que tinha realizado em sampa e tambem algumas baladas que tinha feito com Tião Carvalho. Semana passada estava em Sampa e aproveitei e refiz a minha parte, quando gravei duas ladainhas ineditas e alguns corridos tambem. A Janja, por outros motivos, não gostou do resultado de suas gravações e as refez no final ano passado. As ladainhas do cd são de minha autoria e de autoria da mestra Janja. Há algumas musicas ineditas cantadas em kikongo e quimbundo. Nos corridos, alguns são de candomblé, outras são de minha autoria e outros são de dominio publico. Teremos a participação do Taata Mutá Imê, dando um toque sacro à nossa criação. No primeiro cd tivemos as participações mais que especiais do mestre Cobra Mansa e do mestre Tião Carvalho. O sucesso alcançado com o primeiro cd foi insofismavel. Agora, esperamos atender à grande expectativa que existe em torno desse proximo que em breve será lançado. Deveremos ter um esquema especial para as vendas por internet. Recuse a copia pirata, resista a tentação de tirar uma copia e prestigie um trabalho de qualidade que precisa ser reconhecido. Obrigado!

NZINGA MAPUTO


Comecei o ano pisando em solo sagrado da Casa dos Olhos de Tempo que fala da Nação Angolão Paketan, portanto, em família. Rezamos, louvamos, cantamos, dançamos, comemos e bebemos. Foi-se a noite do réveillon até as 4 da matina. Fogos de artificio só o adrianino de 12 tiros, tipico para anunciar ao longe alguma macumba. Foi uma sexta feira perfeita! Dois dias depois estaria seguindo para o continente africano, mais precisamente em direção a Maputo, capital de Moçambique. Lá, fui participar do 1º Festival do Xitende, evento idealizado pelo Grupo Nzinga Maputo e realizado em parceria com o Centro de Cultura da Provincia, o equivalente ao que temos aqui como Secretaria de Cultura do Estado. Dentro deste festival, aconteceu o nosso evento de capoeira: “CHONGA MANDINGA”, que recebeu o incentivo do Ministério da Cultura do Brasil, que financiou as passagens aéreas para 3 integrantes do Nzinga SP e os 3 mestres do Grupo Nzinga em Salvador. Na hora “H”, a mestra Janja ficou impossibilitada de fazer essa grande viagem conosco, por conta de compromissos relativos ao departamento na qual é uma das dirigentes na Faculdade de Educação da UFBa. A delegação que viajou foi formada por mim e a mestra Paulinha, e mais os treineis Daniel, Manoela e Denis, do Nzinga São Paulo. Juntamo-nos lá, ao treinel Limaverde, que coordena há 1 e meio o núcleo Nzinga em Maputo e que possui aproximadamente 20 jovens e adolescentes. O 1º Festival do Xitende foi amplamente divulgado, com entrevistas em FM, vários jornais e televisão em horário nobre. Fizemos apresentação da Orquestra de berimbau em via publica, em frente ao Centro de Cultura na capital. Momentos antes, apresentaram-se os tocadores de Xitende. Momento mágico, quando a platéia começou a contribuir com o show, através de danças e aleotrias. O Xitende é uma espécie de arco musical, parente próximo do nosso berimbau, e que é muito tradicional em Moçambique. O problema é que está caindo em desuso. Os jovens mal conhecem as historias acerca desse instrumento ancestral. Com o berimbau aqui no Brasil, quase aconteceu o mesmo. Tambem estava sendo cada vez mais esquecido, ate que ressurge juntamente com a capoeira na Bahia. Fomos convidados também para visitar a província de Xai-xai, que fica há umas duas horas de carro ao norte de Maputo. Famosa por suas belas praias. Fizemos essa viagem em uma van com 16 lugares, onde alem da galera da capoeira, tinha a Diretora Amelia, do Centro Cultural e alguns funcionários. Havia ainda três jornalistas de veículos de comunicação diferentes, que estavam ali para fazer a cobertura jornalística daquela jornada cultural. Em Xai-Xai, fomos recebidos pelo Diretor do Centro Cultural e mais o seu staff no salão nobre do Centro que naquela oportunidade estava sendo reinaugurado, depois de passar por grande reforma. Um local importante dentro da sociedade de Xai-Xai. Após o cerimonial interno, saímos a porta do prédio para executarmos os temas da orquestra de berimbaus e depois fazermos uma roda de capoeira, onde incluiríamos um pequeno grupo de capoeira regional que estava a nos esperar para as celebrações. Foi muito bonito esse momento. Formou-se uma pequena multidão. Os olhos curiosos quase saltando da cara! Dava para ver que aquilo era diferente aos olhos daquelas pessoas. Foi um encantamento! Primeiro mostramos um pouco do nosso trabalho com a Orquestra de Berimbaus, mostrando inclusive a novidade que é a musica Tiene Pamosi, que é uma musica resgatada na revolução moçambicana. É cantada com palavras em varias línguas locais, exatamente para unir os soldados de varias etnias na guerra contra o inimigo português. O sentido da letra da musica quer dizer que: juntos somos invencíveis, juntos somos fortes! Foi muito forte ver aquelas pessoas cantando a musica, como se tivessemos ensaiado para aquilo. Foi demias!Para os que acompanham a trajetória do Grupo Nzinga, conhecerão essa musica em breve, através do nosso segundo CD que será lançado nas comemorações dos 15 anos do Grupo Nzinga, que acontecerão em meados de 2010. Resumindo: Gostei muito das coisas que vi em Moçambique. A facilidade na comunicação através da língua portuguesa foi um diferencial. Fiquei perplexo também pela facilidade que os jovens possuem para aprender a capoeira, toques e aleotrias. As mandingagens próprias da capoeira angola, não lhes parecem estranhas, ao contrario do que acontece com povos de outras partes do mundo. Enfim, foi muito positivo poder conviver por tantos dias seguidos com os nossos treineis e um prazer muito grande poder conhecer o trabalho que o treinel Limaverde tem realizado em Maputo. Faço esse rápido relato de viagem para renovar a intenção de compartilhar com os leitores deste blog , as experiências e impressões a respeito da capoeira, e portanto, da vida. Depois relato como foi o dia em que vi a porca torcer o rabo no Parque Kruger... até a próxima!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Forte de Santo Antonio Alem do Carmo!


Dos detalhes que me lembro, o Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP) treinou um tempinho nas Docas, que era onde o nosso mestre trabalhava e depois foi para a mesma sala onde até hoje está o mestre João Pequeno. Em seguida foi para a sala onde ficou por quase 15 anos... aquela do chão enxadrezado de preto e branco. Onde aconteceram na decada de 80, eventos memoraveis que marcaram o ressurgimento da capoeira angola na Bahia. Emblema de uma fase de resistencia que ficou gravado nos registros fotograficos e nos filmes e videos da época. Na foto ao lado, dá para ver o piso. Ampla vista para a baia de todos os santos, principalmente quando iamos para o terraço lateral. Muitas vezes confeccionamos os nossos berimbaus nesta área. Muito samba, feijão e capoeira. Que saudade! O GCAP ficou nesta sala até o dia em que esta foi demolida e o Forte de Santo Antonio transformou-se no Forte da Capoeira. Apesar da sensação de vazio e de que está faltando alguma coisa que me era importante lá, reconheço por outro lado que é legal ver o Forte na sua forma original. Preservaram-se o patrimonio arquitetonico de uma historia e extinguiram o de outra. Não por acaso, foi exatamente o de uma arte negra, da capoeiragem. Para mim será sempre o Forte de Santo Antonio, pois ele é o protetor da barquinha de noé. Esta sala a que me refiro, fez parte de um episodio curioso naquela época. Ela vinha sendo ocupada pelo finado Mestre Ezequiel, da capoeira regional, mas este já não aparecia lá há muito tempo, pois tinha outro espaço onde estava dando aula de capoeira, se eu não me engano, lá pelas bandas de itapuã. Então, como sem duvida nenhuma o espaço do M. João Pequeno era pequeno para abrigar os dois grupos, e o M. Ezequiel já não tinha aquele lugar como essencial para a continuidade de seu trabalho, nós o invadimos. Subimos as escadas, serramos o cadeado e o ocupamos. O M. Ezequiel tinha a maior afinidade com os nossos mestres e não aconteceram maiores tensões por causa disso. Naquela sala construimos parte de uma historia! Hoje, no mundão de meu Deus, construiremos outras...

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Ave Maria meu Deus!

Notei que o numero de seguidores aumentou. Legal! Hoje, semanas após a ultima postagem, venho para expressar a minha indignação com o que se tem dito a respeito do mestre Moraes na roda virtual do mestre Geronimo. Me convenço que é melhor fechar para alguns tipos que gostam de aparecer quando sabem da presença de grande plateia. Que escrevem muitas besteiras sem saber fazer um "O" com um copo. O que falaram do mestre Moraes foi brincadeira. Um icone! Acho que ninguem duvida disso a essa altura do jogo. Penso em como as vezes é melhor nem dar uma rasteira em determinada pessoa só para não escala-la para um fato historico ou magico. Tipo aquele goleiro que tomou o milésimo gol de Pelé. O destaque é o gol, mas o goleiro aparecerá tantas vezes quanto seja repetida a cena. O tal mestre que eu nem sei o nome, tem a boca grande demais e não fala coisa com coisa. Me faz pensar também como é delicado o ato de escrever e publicar. Tem que ter coragem... Um vacilo, e o mundo todo fica puto com a gente. Se pensarmos que na vida tambem é assim, então poderia dizer agora: "escrever é viver!". Inclusive, perigosamente.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Besouro Preto, a lenda!

Amanhã vai rolar uma peça de teatro aqui no Vila Velha sobre a lenda "Besouro Preto". Vamos levar as crianças para essa atividade extra-classe. Vamos em dois carros. Eles ainda não sabem disso, mas tenho certeza que vão adorar a idéia de ir ao teatro, ainda mais para aprender sobre a vida deste capoeirista brilhante que foi Besouro. Muitas de nossas crianças sairam pela primeira vez de seu bairro através da capoeira. Temos visitado museus, teatros, cinemas, casa de pessoas amigas que tem quintal grande para a gente fazer alguma folia, fomos para a festa da Boa Morte em Cachoeira em agosto passado. Temos apresentado varias perspectivas e horizontes diferentes para os nossos muleekes. "Capoeira é tudo que a boca come".

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Salve Jorge!


Sou de uma familia de 12 irmãos. Sou o 9º na escala decrescente. Sei a data de aniversario de apenas alguns. Sou bom em nomes,tanto que sei os nomes delas e deles todos, mas em datas já não sou tão bom assim. Falo disso para contar uma pequena historia a respeito do dia da primeira aula aqui em Salvador. Era uma terça feira. Me lembro bem que estavam lá Christine Zonzom, Adriana e talvez uma ou duas pessoas mais. A sala que usamos no primeiro ano e meio, ficava no terraço da casa de minha irmã Petinha(não me lembro a data do aniversario dela). Era uma sala decente, porém ficava num bairro classe media bem fora de mão e que dava o maior trabalho para chegar lá, apesar de ser proximo da orla para quem chegava de carro. Tinha-se que caminhar muito da orla ate lá ou então esperar longo tempo pelo ônibus que parava praticamente na porta do espaço. Então, neste dia, 23, voltava eu da aula, exultante pela inauguração do Proto-Nzinga em Salvador. Sem lembrar que aquele era o dia de S. Jorge, pensava enquanto dirigia que talvez fosse uma boa ideia colocar como a data de fundação o dia 22 de abril, dia do descobrimento do Brasil. Cheguei a lamentar o fato de não ser feriado. E fui viajando nestas besteiras em direção à casa de Teresa, minha mãe (01/10/29)que fica no fim de linha do bairro popular do Engenho Velho de Brotas. Aconteceu que quando estava chegando lá, tava o maior foguetorio do mundo e muitas pessoas na rua festejando. Aí a ficha caiu e eu caí na real! Fui obrigado por forças maiores que as minhas a estacionar o carro no Largo e participar dos festejos. Encontrei com alguns amigos dos tempos dos babas e bebemoramos aquele momento e aquele dia. Salve Jorge!
As nossas primeiras rodas aconteceram lá muito por causa da ajuda da FICA, que comparecia em bloco. O pessoal do Zimba dava umas passadas lá. Digamos que tenha sido um periodo dificil. Bom, mudamos para o Idearium no segundo semestre de 2003 e ficamos lá até o segundo semestre de 2005. O Idearium fica exatamente em frente à igreja de Santana e da Casa de Yemanjá no Rio Vermelho. Tinhamos vista para o mar e muitas janelas. O salão era mais espaçoso que o do STIEP. Estavamos literalmente aos pés da Sereia e dentro da muvuca da noite do Rio Vermelho, a mais quente da cidade. Foram tempos melhores. Lá era caminho para todos os lugares e a frequencia aumentou substantivamente. Fizemos o duplo lançamento da revista Toques D'Angola sobre o Antirracismo e sobre a Africa, com as presenças dos Mestres Pelé, Gildo Alfinete, Cobra Mansa, Jurandir e com a casa totalmente lotada. Recebemos a visita do mestre João Grande por duas vezes. Fizemos forrós e rezas de Santo Antonio. O que tinha de problemas lá é que era um espaço de festas e de bar. Espiritualmente falando, não era o melhor lugar. Antes de mudarmos para o Idearium, procurei sala no Alto da Sereia e achei a que hoje temos, só que estava alugada para uma academia de musculação, dessas bem populares. Falei com o dono da sala, Cacareco, que se algum dia a academia saisse, que era para ele me ligar que eu sairia na hora de onde estivesse para ir para lá, pois a ideia de atuar em comunidade era uma meta. E assim foi. Tudo se encaixando e se encadeando de modo que fomos parar onde estamos agora. A Nzo a Longo Ngola, tem sido a casa de aprendizagem para muita gente: os adultos e as crianças da comunidade do Alto da Sereia. Pois é, na semana passada completamos 7 anos de vida em Salvador, na quinta 23. Fizemos mais uma roda cheia de beleza e encantos, seguida por uma festinha basica regrada a forró e muita criança dançando. Em nossas festas, não sei quem dança mais, se as crianças ou adultos. É uma duvida sadia! A qualidade de nosso trabalho foi amplamente reconhecida por quem é do meio e as nossas crianças e jovens viraram nosso principal estandarte. Na Nzo a Longo Ngola, tivemos a honra de receber novamente o mestre João Grande. Pelo quarto ano seguido, fazemos uma grande roda de capoeira no dia 2 de fevereiro, reunindo grande numero de mestres e de capoeiristas, seguido de cortejo do Balaio até a casa de yemanjá para de lá seguir para o mar. Temos tido muitas alegrias e o reconhecimento da comunidade.
Finalizo com a Oração para São Jorge:
Eu ando vestido com vossas armas para que
Meus inimigos, tendo pés, não me alcancem.
Tendo mãos, não me peguem
Tendo olhos, não me enxerguem,
E nem pensamentos possam ter
Para me fazerem mal,
Armas de fogo meu corpo não alcançarão
Facas e lanças se quebrem
Sem ao meu corpo chegar
Cordas e corrente se arrebentem
Sem o meu corpo amarrar.
Glorioso São Jorge, em nome de Deus,
Estendei vosso escudo e
Vossas poderosas armas
Defendendo-me com vossa força e grandeza!


Salve Jorge!

quinta-feira, 26 de março de 2009

Luz, camera, ação!

Ontem, tivemos no Nzingasalvador um treino diferente, ou melhor, igual. Vou explicar: eu e a Janja fizemos a aula normal. A diferença é que tinham 2 equipes de filamgens trabalhando e compatilhando os mesmos holofotes. Uma das equipes era da parte do mestre Joãozinho de bh ou João monge ou João espiritual... Estavam em Salvador para gravarem cenas de um importante documentario abordando a volta que o mundo dá com a capoeira, ou coisa parecida. Antes de ontem, eles gravaram com o mestre Moraes. Estavam esperando o mestre Cobra Mansa voltar para a capital, para tambem grava-lo. Entrevistaram o muleeke Leo. A outra equipe era de um canal de tv da Coreia do Sul que tava recolhendo imagens e sons da cultura popular. A tarde tinham gravado com meu irmão Gereba e seu violão, e quem intermediou o contato com a gente. Esses, entrevistaram o muleeke Antonio. Contando ainda com as entrevistas da mestra Janja. Para fechar a aulinha, uma rodinha basica de 30 minutos. A ação foi boa, apesar das luzes e cameras.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Gerações na capoeira!

Gostaria de saudar pelo nome, alguns mestres antigos que já tive o prazer de ver em ação, de outros nem tão antigos e de alguns jovens. Em todos estes busco inspiração para jogar e viver, viver e jogar! Pude ver e jogar com os bambas da capoeira angola. Com alguns deles, joguei nos meus primeiros passos de angoleiro e na inocencia de iniciante. Outros, só tive o prazer de ver cantar e fazer uma pequena mandinga, como foi o caso de Mestre Valdemar poucos meses antes de morrer, quando esteve no GCAP, acompanhado pelos mestres João Grande, Gaguinho, Fernando (que tocava berimbau no CECA de Pastinha) e Cobra Mansa. Me lembro como se fosse hoje de uma das rodas que fazíamos em domingos alternados, à tarde no Forte de Santo Antonio. Tenho fotos deste dia. Chegaram todos juntos! Houve uma pequena agitação no ambiente, enquanto os mestres faziam poses para as fotos. Depois, eles arrodearam a roda e o velho mestre cantou uma de suas famosas ladainhas, quando então, ao termina-la, entrou na roda e deu uma mandingada ao pé do berimbau e depois retornou para sentar. Foi só isso e isso foi tudo! A emoção foi grande naquele momento. Foi como se estar numa mata e sentir o vento soprar nas folhas provocando um barulhinho bom. Foi como se eu de repente tivesse percebido a natureza se expressando pela capoeira. "A capoeira angola é uma especie de natureza"(J. Pequeno). São essas sensações que quardo daquele dia em que fiquei lado a lado com o velho mestre Valdemar, mourão da tradição angoleira em uma de suas ultimas aparições publicas. O Dono do Barracão. Era expoente de uma outra escola angoleira, tão legítima quanto a do mestre Pastinha. O capoeirista que inventou a pintura em berimbaus e que por isso foi muito criticado na época. Assim como o foi Pastinha, quando na época ressaltou os princípios da "não-violencia" e interpretou os princípios filosóficos da capoeira angola. Ngunzo para os Mestres:
+Valdemar da Liberdade
+Bobó
+Zacarias
+Caiçara
+Canjiquinha
+Paulo dos Anjos
+Bom Cabrito
+Dois de Ouro
+Gerson Quadrado
+Ezequiel
+Di Mola
+Leopoldina
+Caiçara


-João Pequeno
-João Grande
-Curió
-Bigodinho
-Boca Rica
-Pelé da Bomba
-Brandãozinho
-Gaguinho
-Bigu
-Ananias
-Gagé
-Bola Sete
-Moraes
-Lua de Bobó
-Lua Rasta
-Jorge Saélite
-Renê
-Zé do Lenço
-Marco Aurélio (RJ)
-Braga (RJ)
-Neco (RJ)
-Zé Carlos (RJ)
-Angolinha (RJ)
-Rogerio (BH)
-Jurandir (BH)
-Cobra Mansa (BH)
-Mano (RJ)
-Lumumba (RJ)


-Manoel (RJ)
-Jogo de Dentro
-Barba Branca
-Roberval
-Rosalvo
-Laercio
-Gabriel
-Faisca
-Pé de Chumbo
-Mano (RJ)
-Lumumba (RJ)
-Valmir
-Poloca
-Janja
-Paulinha
-Boca do Rio
-Jararaca
-Elma

domingo, 22 de março de 2009

Tradição e Filosofia!






No dia 12 de março, quinta feira, fui ver o lançamento do livro “Mestre e Capoeiras famosos da Bahia”de autoria do professor Dr. Pedro Abib, da Faculdade de Educação da Ufba e, tambem aluno do mestre João Pequeno de Pastinha. Não pude deixar de notar a ausência dos velhos mestres, inclusive retratados neste livro. Mestre João Pequeno, mestre Boca Rica e mestre Pelé da Bomba estavam lá.


Mesmo sem ainda ter lido o livro de Pedro, sei que se trata de um documento importantíssimo para a historia da capoeira pois, estão lá, os nossos heróis, personagens que já passaram por esta vida e que nós não sabemos absolutamente nada de suas trajetórias na capoeiragem, e de outros que já se foram mas, felizmente tivemos a oportunidade de conviver com eles em algumas ocasiões.
Lembro-me de quando no inicio de janeiro deste ano, fui assistir tambem no Forte de Santo Antonio, ao lançamento do dvd sobre a vida do mestre Pelé, e lá também não tinha um mestre antigo sequer. Nem mesmo os que normalmente tem os seus espaços dentro daquele forte foram lá prestigiar este evento. O próprio mestre me confidenciou que estava sentido com aquilo... Nestas situações, nós, da nova geração da capoeira angola, sentados humildemente nas filas posteriores de cadeiras, guardando exatamente o lugar dos "velhos mestres", somos requisitados temporariamente para compor o staff de convidados do evento. É importante também, porque assim como nós estamos entrando na fase adulta admirando e respeitando os “seniors”, tem os que estão nascendo e os que estão na primeira infância e que precisam ver todos os anteriores para que, sob amplos horizontes, cresçam. Claro que também é importante para os mais velhos assistirem e acompanharem, mesmo que seja à distancia, a trajetória e caminhos dos mais novos, para que possam reconhece-los no futuro enquanto angoleiros. Estou falando aqui de Tradição na Capoeira Angola. Apesar de ter afirmado acima que sou apenas um jovem na capoeira, já deu de ver muitas coisas que no começo não dava nem para imaginar. Por exemplo, aluno de um determinado grupo ser coordenador de grupo, aqui ou em qualquer lugar, jamais! Nem pensar numa coisa dessas! Hoje, quase 30 anos depois, não passa de uma coisa trivial, inclusive no berço sagrado da capoeira, onde nascem os camaradas... Tudo bem, tudo bem! Para quem foi quase extinta como foi a Capoeira Angola, o momento era e ainda é de expansão, mas por outro lado, tenho receio de cair na ideia maquiavelica de “os fins justificarem os meios” e isso não pega bem, e se não pega bem, pega mal. A Filosofia Pastiniana quase que é completamente desconhecida. Hoje em dia, é importante que nos reportemos muito mais à sabedoria do velho Pastinha, para tentar fazer e ensinar a capoeira angola que ele preconizou , e que por isso até foi discriminado na época, principalmente pelo que propôs no plano conceitual. Que é onde acho que existem as maiores duvidas das varias escolas de capoeira. Principalmente se pensarmos que o numero de golpes na capoeira nem é tão grande assim. Natural será achar que os golpes são a parte mais fácil desta arte angoleira e é isso que os alunos que assumem as responsabilidades de coordenar núcleos pelo mundo afora tem feito. Uns com muito mais competência que outros por terem convivido mais tempo com os seus mestres e terem acumulado mais fundamentos da filosofia do jogo. Nesse aspecto, os casos de alunos estrangeiros desempenhando esse papel amplia a problemática, pois alguns nunca sequer vieram aqui na Bahia ou no Brasil , para dar sentido às varias coisas aprendidas nesse universo capoeiristico, impregnado pelo modo ver o mundo da cultura africana, ao mesmo tempo em que teêm dificuldades de querer aprender a serem pequenos antes de querer aprender a serem grandes. O que vemos então, no exterior, é uma supervalorização do aspecto marcial em detrimento de vários outros aspectos contidos nas amplas e numerosas definições de capoeira angola.
Ouvi certa vez do mestre João Grande que "a capoeira é de quem quer aprender, mas tem que merecer". Nada vem de mão beijada...

sábado, 14 de março de 2009

Mestre Pelé nzingou!


Ontem, sexta feira 13, roda do Nzinga foi diferente. Deu 7 horas e lá não tinha quase nenhum adulto. Muitas crianças! Que alegria! Foram chegando e começamos atrasados. Já tinham rolado uns poucos jogos quando o mestre Pelé chegou com alguns alunos. Foi uma presença que trouxe um ngunzo especial à nossa Nzo a Longo. Ele é a maior presença, quem o conhece sabe disso. Cantou varias ladainhas, varios corridos novos ao nosso repertorio e no final ainda armou uma pequena roda de samba. Ele é um showman. Mas tambem tem as ranzizisses dos antigos. Interpreto como uma visita de reconhecimento ao trabalho que temos desenvolvido em Salvador.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Ça Vá!


Quando nos últimos dias de fevereiro desembarquei no Charles De Gaulle em Paris, a minha aluna Luna Vargas estava lá me esperando com a prontidão que todo mestre que ter das suas discípulas/os. Principalmente quando o mestre não falar a língua daquele pais. Mesmo sendo descolado, as vezes fico na maior tensão. Mais ainda quando a gente sabe que determinado pais tem histórico de preconceito e racismo. Nem falo tanto por mim, mas por outros companheiros de jogo que se aventuram pelos aeroportos no mundão de meu Deus e que , as vezes por falar pouco em sua própria lingua, não conseguem um nível satisfatório de comunicação e passam também por seus momentos de tensão. Ça vá, voltando à prontidão, estávamos indo de trem para o centro de Paris, eu e Luna, conversando muito, dando varias gargalhadas, coisa difícil em trens e metrôs da europa, quando lá na frente do vagão tinha uma mulher que a todo instante se virava para nos observar com uma cara amiga, quase sorridente também. A certa altura das risadas, ela exclamou em alto e bom tom: “como era gostoso ouvir a gente falando o português”... Aí a gente chamou-a para vir para junto e participar da conversa. Ela nem pestanejou, veio incontinente em nossa direção e aí notamos que ela carregava uma sacola. Sentou-se imediatamente atrás de mim, pois os assentos ao lado estavam ocupados com a minha bagagem. Nos apresentamos, o nome dela era Iolanda e ela tinha vindo de São Paulo. Estava virando a vida vendendo coxinha. Sim, a nossa coxinha de galinha era o produto que ela estava fazendo sucesso em Paris. Só isso já torna a simples coxinha numa coisa chic. Ça vá! Conversamos mais um pouco e ela foi nos contando que havia acabado de embarcar o filho dela para São Paulo. Ela tinha comprado duas garrafas de um bom vinho francês para mandar de presente para a sua mãe, só que o filho vacilou e não despachou nas malas. Na hora do embarque, as garrafas foram barradas. Medidas de segurança... Por isso Iolanda estava com o pacote nas mãos. A viagem foi longa e a conversa comprida. Lá pras tantas, ela me dá de presente os vinhos e me deseja boas vindas a Paris. Agradeceu a acolhida na conversa e desapareceu numa parada qualquer do percurso. Me senti abençoado e prestigiado pela sorte! A Luna não acreditou na forma como tudo aconteceu. Chegou até a esfregar o seu braço no meu para ver se a sorte pegava nela também. Essa foi a chegada. A saída também é digna de um relato. Sem querer tirar onda, foi quase apoteótico! No ultimo dia do estagio de capoeira, no dia 1 de março/09, depois que encerramos, fomos para um bar confraternizar com os participantes e com as pessoas que foram somente para a roda. Já tinha ido neste local durante o dia para tomar café com leite. Ça Vá! A noite, o tempo estava meio frio, 5 graus, e eu estava com a garganta detonada, rouco. Todos pediram cervejas, menos eu. Perguntei para os amigos, o que o trabalhador bebia depois de cumprir a sua jornada de trabalho decentemente, que era o meu caso. Congnac! Foi isso que comecei a bebericar. Falamos muito em capoeira. Depois mudamos de assuntos. Depois da primeira rodada, tinha um brasileiro com cidadania portuguesa que se aproximou da nossa turma para pedir licença para participar daquele encontro tão alegre e festivo. Foi mais um para engrossar o coro! Ele se ofereceu para pagar o meu congnac, e por extensão a cerveja da rapaziada toda. Era só o começo! A medida que fui bebendo os drinks, o choro da felicidade foi ficando cada vez mais fácil, o que era desejável... Rolou a sessão piadas. Aí então é que foi engraçado... Me lembrei de piadas antigas e históricas. Algumas que tinha aprendido com o mestre Moraes, notavel contador de historias. A essa altura todo o bar já tinha puxado as mesas e cadeiras para próximo da nossa e eu já sabia que todos falavam português. Ou melhor, que todos me entendiam. Aí, no quinto congnac, pedi permissão para contar umas piadas de português. Ao perguntar isso, parecia que eu já tinha contado uma piada, pois todos gargalharam muito. Entendi aquilo como sendo uma permissão. Antes porem, relembrei que em Portugal os brasileiros é que são as vitimas nas piadas...outra piada! Então comecei de fato. Contei varias! Todos estavam muito felizes e a essa altura, as cervejas da rapaziada nem sequer chegavam a metade, já que logo eram trocadas por novas, pois já era grande o numero de pessoas dispostas a pagar uma rodada. O sexto congnac foi oferecido pelo dono do bar, quando já estavamos de pé. Neste momento tambem me perguntou se eu tinha souvenirs para vender e terminou que me comprou dois berimbaus pequenos para movel. Teria ainda na fila uns 10 congnacs para tomar, mas tava chegando a hora de voltar para a casa e a saída não foi nada à francesa. Pelo contrario: todos na porta do bar pedindo para a gente ficar mais um pouco e tomar a saideira. Quase que foi difícil sair de lá...

terça-feira, 10 de março de 2009

Causo veridico!


Tava andando pelo mundo e um amigo me contou este causo totalmente veridico. Foi assim: o mundo capoeiristico estava consternado com a morte do grande M. Valdemar da Liberdade. Todos no enterro rumo à Quinta dos Lázaros no bairro do IAPI. Muitos mestres das mais diversos escolas. O finado mestre Ezequiel ia tocando o berimbau, e quem o conheceu sabe que ele tocava bem demais. O mestre Cobrinha, que ainda não tinha virado mestre Cobra Mansa, até que queria tocar tambem, mas se contentou em ir filmando aquele cortejo funebre com uma moderna maquina filmadora adquirida naqueles dias. Seguia sem perder nehum detalhe. Play, pause, play, pause... Finalmente o cortejo chegou ao cemiterio. O padre pronunciou as tradicionais palavras catolicas, depois teve mais ladainha e berimbau, até que chegou o momento de descer o caixão no buraco. Até aí tudo bem, o caixão já estava no fundo quando de repente uma das cordas usadas para fazer isso ficou presa embaixo dele e o mestre Ezequiel prontamente pisa com um dos dos pés de um lado e com o outro pé pisa do outro lado do buraco para apanhar a corda. Neste instante, uma das bordas do buraco cede e despenca em cima do caixão, levando junto o mestre Ezequiel. Muitos superticiosos de plantão, atribuem a este fato a morte precoce do mestre Ezequiel 6 meses depois. O mestre Cobra Mansa tem essa filmagem...A foto das crianças do Alto da Sereia para iluminar o nosso forum.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Iê, volta do mundo Camará!


Ano passado dei um giro por 5 cantos do mundo: Finlandia, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos e Mexico. Este ano, acabei de retornar da Italia, Espanha e França. Como sou graduado em Geografia, não me faltam olhos para observar os elementos da paisagem: relevo, vegetação, clima, biodiversidade, oceanos e outros elementos, como por exemplo, os habitos e costumes, as relações humanas, a religião, as varias culinarias, as vestimentas etc. É legal ver e sentir as diferenças, tanto do aspecto fisico quanto do humano. Somos muito diferentes mesmo e até ai beleza... Abro parentesis: No meu tempo de estudante, estudamos um alemão chamado Ratzel, que defendia uma teoria determinista que, a grosso modo, afirmava que os povos das regiões temperadas ou das medias latitudes eram mais desenvolvidos por causa do clima com invernos muito rigorosos e estações bem definidas. Fecho parentesis. Não sei se foi por causa do clima, mas foram esses que se jogaram no mar e terras para explorar outros lugares, dando-se o direito de se apropriarem de riquezas que não eram suas e, escravizar povos que eles supunham menos inteligentes ou com cor da pele diferente da sua. O acumulo de grandes riquezas foi uma questão de tempo, tornando mais facil a tarefa desses estados se transformarem em potencias mundiais no futuro que se seguiu. Escrevo isso mas não nego as contrbuições... Hoje em dia, o que se vê muito na europa e USA é a intolerancia para com esses povos que foram explorados e escravizados no passado. Quase como por ironia, eles pensam que esses pobres estão chegando para lhes tomarem os empregos, as mulheres e as suas riquezas...Isso é ou não uma ironia do destino?
Ao desenbarcar em Milão, há 3 semanas atrás, o policial da imigração ao me liberar, aproveitou e falou em alto e bom tom, que eu mais parecia um traficante colombiano... Vejam só! Tive que engolir isto, pois seria dificil a comunicação... Nunca foi tão facil desrespeitar alguem, mais ainda quando for um europeu na europa contra um do terceiro mundo. Deixei para lá, mas pelo simples fato de estar compartilhando isto com voces, vê-se logo que o negocio não foi facilmente digerivel não. No dia seguinte a isso, tive que comparecer a uma delegacia por livre e espontanea vontade, cumprindo a lei, para registrar a minha presença no chão daquele pais e novamente dizer em qual endereço estaria morando durante a minha curta estadia. Preenchi papeis e os assinei. A minha senhoria estava tomando precauções para não ser atingida pela nova lei de imigração. Obra ingrata do senhor Berlusconi, "bambino de oro" da mafia italiana. Então, uma reflexão que tenho feito é de lembrar do filosfo alemão F. Nietsche, nem sei como se escreve, quando diz:" Meus filhos não são meus filhos, são filhos do mundo." E começo a pensar nos nossos "filhos" da capoeira, soltos no mundo, muitos se quer conhecem o pai ou as mães (no caso do Nzinga). Mas, sabemos que estão lá. E ainda, dentro dessa linha de raciocinio, como tratar todos os filhos indistintamente, imaginando o melhor para cada um deles? A partir dessas demandas existenciais, inevitavel fica não pensar nas coisas que nos move para frente dentro do espaço e tempo da capoeira. Estamos nessa para defender os interesses do nosso grupo primeiramente, ou estamos por uma causa? Na boa, falo isso na maior liberdade, por que sei que o Nzinga é um dos poucos grupos que na opinião de pessoas importantes do mundo da capoeira, faz exatamente o que diz que faz. E é verdade! Então, lutar para se estabelecer como uma instituição que atraves da sua militancia preserva, resgata e divulga os valores da capoeira angola e algumas tradições educativas dos povos bantos é de fato um objetivo a ser alcançado. Poucos falam ainda das ideias do velho Pastinha. Por outro lado, todos querem jogar e ensinar a sua capoeira. Olha o paradoxo! É como se fosse uma conexão encerrada e que no futuro fará muita falta e que alguem ou algum movimento organizado precisará fazer a "re"-conexão. As marcas e cicatrizes desses tempos serão inevitaveis se vierem. Seria: a cabeça separada do corpo. Se uma determinada filosofia não é colocada em pratica, como ela poderá nos transformar? Claro que podemos optar por outra, que seja, mas o que não se pode é fazer de uma e falar de outra. Nas vezes em que viajo, sempre volto com a moral elevada, por perceber e reconhecer as potencialidades dos nossos alunos e alunas sendo desenvolvidas no dia a dia num ambiente de liberdade fazendo com que os cerebros fiquem maiores. E isso não é nenhuma maluquice da minha cabeça, não. É a ciencia que tem afirmado. Encerrando esse papo, diria que num grupo de capoeira existem muitos espaços de vivencias, ocupe-os. Seja o de aluno que só paga a mensalidade em dia, seja o que além de pagar ainda está totalmente envolvido ou seja o que está apenas mais ou menos dentro, com duvidas sobre as escolhas que tem que fazer. Todos tem o seu papel, mas qual a historia que cada um gostaria de escrever nesse papel? Prestem atenção no lugar onde cada um pode se inserir no ambito da genealogia da capoeira angola. Isso não pode passar despercebido. Os nzingueiros de plantão, que estão engajados querendo fazer pela causa da capoeira angola se liguem de quão proximos estão da fonte. Se há alguem querendo seguir os rumos da capoeira angola, isso pode ser feito de duas maneiras: ou se vai atrelado à tradição ou não. A vida não vai se cansar de arranjar demandas e cada um deve ser responsavel pelas escolhas que faz. Se quer fazer carreira solo, assuma e se pique para bem longe. Parecerá facil, mas não acredite em tudo que os seus olhos verem. Se quer ser mestre com reconhecimento dos mais antigos, da velha guarda, então o caminho será longo e cheio de dificuldades, alegrias, compromissos, escolhas, afetos, desafetos e uma porção de coisinhas mais que ainda vão aparecer em nossos caminhos... Concluo afirmando a confiança que tenho em voces para zelar pelo que carinhosamente tem sido ensinado no Grupo Nzinga de Capoeira Angola.